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Entrevista com Alvaro Pierri (inédita, concedida em 2008)

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Essa entrevista foi concedida há pouco mais de um ano atrás para ser publicada numa revista, mas infelizmente permaneceu inédita.

Decidimos atender o pedido do Alvaro Pierri de mantê-la na íntegra, mesmo com as informações sobre a viagem dele ao Brasil se referirem ao passado. Pierri veio ao Brasil em
junho de 2008 e encantou platéias de várias cidades do país, em turnê da série Guitarissimo, organizado pelo Instituto Cervantes.

Alvaro Pierri


Alvaro Henrique: Você poderia falar como foi sua formação musical?

Alvaro Pierri: Eu nasci e cresci numa família de músicos. Minha mãe Ada Estades era pianista e professora, minha tia Olga Pierri, reconhecida violonista e professora de violão, meu avô José Pierri Sapere, violonista também e reconhecido compositor de música folclórica, a tia da minha mãe, Virginia Castro, cantora de ópera, outro primo da minha mãe, Hector Tosar, muito reconhecido pianista, compositor, diretor de orquestra, etc.  A minha formação teórica e ao piano foi no inicio com a minha mãe, desde os três anos de idade. Também brincava com o violão ao mesmo tempo.  Logo tive professoras de teoria à parte da família: Teresa Surroca, Gladys Acuña e outros. Estudei também  na Universidade, Faculdade de Humanidades e Ciências, aonde fiz  Musicologia com fantásticos professores como Hugo Balzo, Alberto Soriano, Hector Tosar, etc. Minha formação violonística a recebi principalmente da minha tia Olga Pierri,  e de Abel Carlevaro. Estudei também com o grande musico e compositor Guido Santórsola, que me deu muito musicalmente, tanto na teoria como na interpretação.  Também sobre a maravilha de "aprender a  aprender" a cada dia.

AH: Você participava dos Seminários do Conservatório Palestrina, em Porto Alegre, e ganhou o Concurso de uma das edições. Como era esse evento? Qual a importância desse prêmio para sua carreira?


AP: Era um evento maravilhoso, no qual a gente aprendia muito com muitos professores e colegas, de muitas nacionalidades e origens. O prêmio daquele Concurso me deu, sobretudo, estímulo para seguir procurando descobrir mais, e me deu a ocasião  de conhecer pessoas que foram muito generosas e instrutivas, como Henrique Pinto, Léo Soares, os irmãos Abreu, os Irmãos Assad, Jodacil Damasceno, Eurico Nogueira França, Robert Vidal, Francis Schwartz, Michele Pittaluga e tantos outros. Também personagens únicos e originais como Antonio Crivellaro e o meu grande amigo e "irmão", o musicólogo  José Roberto Diniz de Moraes.

AH: Você faz parte de uma geração de violonistas uruguaios e argentinos extremamente talentosos que surgiram nos anos 1970 e 1980. Hoje, ao menos para nós brasileiros, parece que esses países não têm formado violonistas de igual quilate. A que você acha que isso se deve?

AP: Não posso responder a sua pergunta, porque há muitos anos que eu moro longe do Uruguai. Visito alguns dias por ano, e isto não me permite de ter o conhecimento de fatos concretos para poder ter uma opinião.

AH: Você foi professor da Universidade Federal de Santa Maria (RS). Por quanto tempo ficou lá? Como foi o trabalho na UFSM naquele período?

AP: Eu fiquei na UFSM seis maravilhosos anos, nos quais  tive a grande sorte de receber muita amizade, carinho, apoio e muita, muita música, da família, dos colegas, dos amigos e dos alunos.  Também foi o lugar e o momento maravilhoso em que o meu filho Pablo Dango nasceu. Um período muito bonito da minha vida. Aprendi a amar o Brasil e a me sentir na minha casa, no "meu lugar", ou como dizem os gaúchos, "no meu pago". Colegas como Shirley Kantorsky, Lise Bulcão, Rose Braunstein, Anna Maria Molz, Federico Richter e tantos outros estão presentes no meu espírito e coração, e a música que fizemos juntos ressoa sempre bonita nos meus ouvidos.

AH: Quando você foi para o Canadá? Pode falar um pouco desse período?

Alvaro PierriAP: Eu fui para o Canadá em 1981. Logo depois de ter sido convidado em Paris,  e em Nova Iorque depois, para me apresentar em  Montreal. Fui ali convidado para o Festival de Oxford, em Julho 81. Logo após o primeiro concerto, recebi convites para lecionar na UQAM - Universidade do Québec em Montreal, assim como na Universidade McGill e também no Conservatório do Québec. De setembro de 81 a abril de 82 lecionei nas três instituições, mais depois escolhi lecionar somente na UQAM e no Mestrado da McGill, pois tinha cada vez mais viagens e concertos. Tenho sido muito feliz também em Montreal, que tem sido minha base de operações de concertos e de vida durante muito tempo. Volto sempre, pois é também a minha casa, com muitíssimos amigos, colegas e lugares que amo profundamente...

AH: Você está agora há cerca de seis anos na Áustria, na Universität für Musik und darstellende Kunst Wien. O que motivou a mudança?

AP: Fui convidado por os colegas a me apresentar ao Concurso aberto para preencher a vaga da  posição antes ocupada por Karl Scheit e depois por Konrad Ragossnig. E como eu tenho sempre feito muitos concertos na Europa desde que ganhei o Concurso de Paris, e desde o meu debut com os solistas da Filarmônica de Berlin em 1983, digamos que pensei que era uma chance muito bonita de fazer coisas muito interessantes. Atravesso  o Atlântico" muito seguido, uma ou duas vezes em um mês ida e volta de todas maneiras. Nesse sentido não ha mudança. Tocar concertos e ensinar tem sido sempre minhas duas atividades preferidas. Fui várias vezes convidado por diversas escolas e instituições. Mas Viena é muito especial e importante no mundo da música clássica. Desde a primeira vez  que  toquei na Konzert Haus, a atmosfera, os colegas e a intensidade das atividades me levaram a me sentir muito bem aqui. Tocar ou assistir um concerto no MusikVerein é uma experiência muito bonita. A  vanguarda musical, compositores e interpretes, respeitam e cultivam o herdado de tantos gênios que aqui viveram e produziram, como Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert , Brahms, ou também Schönberg, Bruckner, Johann Strauss ou Richard Strauss, Berg, Webern e tantos outros. Sem esquecer  Giuliani, Diabelli, Molitor, ou o luthier Stauffer, que revolucionou a forma e mecanismos dos violões no inicio do século dezenove, e que fez violões para Legnani e Paganini, entre outros.  Tenho aqui também alunos excelentes, originários da Europa, da Ásia e das Américas,  que tocam muito bem,  ganham muitos concursos internacionais, e com os quais  a cada encontro nos divertimos  procurando aprender a aprender, e concretizar idéias, conceitos, e estéticas em liberdade mas com estruturas e objetivos  para que a experiência de fazer musica seja uma de comunhão entre o compositor e o interprete. Também é uma "base de operações" para viagens,  muito bem situada, com conexões diretas para todo o mundo. Também é a pátria da minha esposa Elfriede.

AH: Se um violonista brasileiro quiser ter aulas com você, o que ele deveria fazer?

AP: Simplesmente se apresentar para o Concurso de admissão. Os dados todos estão na pagina web da Universität für Musik und darstellende Kunst Wien,      www.mdw.ac.at

AH: Seu trabalho mais conhecido no Brasil provavelmente é a gravação em vídeo do Concerto para Bandoneon, Violão e Orquestra de Astor Piazzola, ao lado do próprio compositor. Você pode falar um pouco sobre essa gravação?

AP: Foi uma experiência muito bonita, em 1985 e em 1986. Nós gravamos o concerto em Colônia, para a Televisão Alemã. Logo depois fizemos dois concertos públicos, acompanhados de churrascos pantagruélicos oferecidos por amigos e embaixadores da Argentina e do Uruguai.  A experiência se repetiu em Montreal, no Festival de Jazz, no ano seguinte.  Ali mesmo e quatro meses depois no Uruguai fizemos planos e começamos a elaborar o programa para uma tournée de seis concertos na América do Norte que íamos fazer em trio de Bandoneon, Violão e Contrabaixo. Tristemente, o Astor caiu doente, e nunca mais se recuperou. A experiência de fazer música com ele  foi muito intensa emocionalmente, e a cada vez quase que não tivemos ensaio de nossas partes.  A música "acontecia" e surgia linda e tranquilamente ao mesmo tempo intensa e estimulante. Na próxima vida temos que fazer essa tournée juntos.  Vou ter que conversar disso com ele um dia...

AH: Outra amizade muito presente na sua carreira foi com Leo Brouwer. Você não só gravou e estreou obras dele, bem como gravou concertos com orquestra de outros autores regidos pelo próprio Brouwer. Há quanto tempo dura essa colaboração? Que frutos ela já realizou?

AP: Eu conheci o Leo quando ele estava no júri de um Concurso em que eu participei em 1976.  Depois, a cada vez que temos estado juntos, pouco importa o continente, o país, o tempo, a circunstância o a  obra para tocar,  temos tido uma "irmandade" natural, musical e pessoal.  No palco com Orquestra, ou às vezes quando eu tenho tocado solo e o Leo pula da audiência pro palco para me acompanhar com as espontaneamente com mãos ou com um tamborzinho improvisado, essa irmandade produz um fio d'água sonora como se a gente tivesse tocado juntos desde 234 anos ao menos...  Ele é um músico extraordinário, em todo o sentido. ,

AH: Qual foi sua gravação mais recente? Tem algum projeto a ser lançado no futuro?

AP: Tenho gravado recentemente, para CDs, as Sonatas de Paganini, de Ponce (No. 3), de Moreno Torroba, de Ginastera, de Bogdanovic, de Ponce (Romântica), de Castelnuovo-Tedesco, de Rodrigo, e outras.  Para DVD,  o quinteto de Eugene Bozza e o de Dusan Bogdanovic com membros da London Chamber Orchestra,  o concerto del sur de Ponce e o de Villa-Lobos com a CBC orchestra de Vancouver.
Planos há muitos, e as gravações  as estou fazendo nos estúdios de Abbey Road em Londres, em Viena e em Reiding na Áustria, e em Hong Kong.  Em solo, com membros da Filarmônica de Viena, com o Ensemble Wien (o concerto do 12 de Junho no Musik Verein de Viena, com o programa: Giuliani, concerto opus 30,  Quinteto de M. Castelnuovo Tedesco, e obras em duos de Piazzola e Manuel de Falla). Em Fevereiro, em Paris - Radio France, gravação  "live" de duos de Villa-Lobos, Santórsola e Ourkouzounov,  duos de Viola e Violão, com Miguel da Silva, Viola do Quarteto Ysaye.

AH: Tive a oportunidade de ouvi-lo no ano passado (2007), na Alemanha, e me chamou a atenção a forma como você conduz a melodia, em especial na interpretação da Sonata III de Ponce. Outras gravações apresentam fraseado e agógica inusitados. Tenho a impressão que você tem a intenção de pôr no primeiro plano algo que numa execução mais convencional fica oculto. Como você trabalha a interpretação de uma obra?

AP: A sua pergunta é muito bonita, mais muito larga de responder com precisão. A bagagem do interprete em todos os sentidos, teóricos, instrumentais, culturais e humanos, são as que determinam  as possibilidades.  A interpretação de uma obra é o produto do encontro do mundo do compositor e suas circunstâncias todas, com as do interprete.  Uma obra tem que ser compreendida e assimilada  com uma sinergia  dinâmica que faça a musica viver, e que quando ela "acontece" todos a estejamos vivendo plenamente, o compositor, eu, e o publico. A estamos "tocando" todos juntos. Se não for assim, ela é estéril, e não "acontece". Tenho  tido a sorte, por exemplo, de tocar e gravar e editar peças de Leo Brouwer, ou de Jacques Hétu, ou de Alcides Lanza, ou Charles Chaynes, e de muitos mais, e sempre a relação com eles foi primeiro musical, através da obra.  A fala é bem mais tarde; nos conhecemos pessoalmente às vezes muito tempo depois. E o que tem sido quase sempre fantástico, é o fato de intercambiar idéias, opiniões, noções, etc., num intercambio e numa "comunhão" musical quase sempre total. E também o interessante dessa comunhão é a diversidade de possibilidades para cada idéia. A questão sempre é a do discurso, e a da escolha dos recursos que dêem vida a obra, e que o discurso seja, a cada vez tem que ser, total e genuíno, organizado e inspirado, estimulante, orgânico, lógico, segundo a ou as lógicas.  Linguagem e fato. Como tudo na vida, como cozinhar, como beijar a sua namorada, ou ler um livro várias vezes... A cada vez é uma nova vez. O mesmo verso, ou o beijo, ou o que for,  tem ou poderá ter um novo sentido ou dimensão.  A música é uma entidade viva, então tem que viver e florescer. A cada vez que eu ouço, por exemplo, a sétima sinfonia de Beethoven,  a Prole do Bebê do Villa-Lobos, ou o quinteto em Do Maior do Schubert, cada versão de cada artista ou artistas tem uma dimensão e uma vida diferente, mas é a mesma obra a cada vez. Difícil de escolher entre as versões de Beethoven do Toscanini, Karajan, Celibidache, Harnoncourt, etc.  Cada uma é válida, possível e digamos necessária. Também as diferentes versões do mesmo diretor, da mesma obra com diferentes orquestras, por exemplo. Também com a mesma orquestra em momentos diferentes.

AH: Em junho de 2008 o você virá fazer uma turnê pelo Brasil, na série Guitarrissimo, do Instituto Cervantes. Qual será o roteiro da viagem?

AP: Os concertos serão no Rio de Janeiro, dia 24 de Junho de 2008, Sala Cecília Meireles. No 26 de Junho em São Paulo. No dia 28 em Brasília e no dia 30 em Curitiba.

AH: Fará alguma outra atividade além dos recitais?

AP: Sim. Vou dar também Masterclasses, sempre no dia seguinte ao recital.  Por favor, comunicar  com o Instituto Cervantes e os  organizadores pelos dados e horários exatos.

AH: Que programa será apresentado nessa turnê em junho de 2008?

N. Paganini -  Gran Sonata (allegro risoluto - romanza - andantino variato ); I. Albéniz - Prelúdio, Zorzico,  Capricho Catalan e Sevilla; E. Gismonti -  Central Guitar; D. Bogdanovic - Ricercare (dedicado a Alvaro Pierri ), Jazz Sonatina  ( allegro - adagio - allegro);  M. Llobet - Variações  sobre um Tema de F. Sor; M. Ponce - Sonata N. 3  (allegretto - chanson - allegro non troppo); A. Ginastera - Sonata op. 47 (esordio - scherzo - canto - final)

AH: Você poderia falar brevemente de seu "equipamento". Que instrumentos e cordas você usa?

AP: Eu toco principalmente com  um violão Daniel Friederich, às vezes um de cedro, outras com outro de pinho (abeto).  Às vezes também com um do Yuichi Imai, ou com um do Tom Humphrey, ou com outro do Bernd Holzgruber, ou com outro do René Wilhelmy.  Às vezes, para algumas peças do século dezenove, uso uma Stauffer original, ou também uma copia do Stauffer feita por Bernard Kresse.

As cordas são variadas, segundo o violão que uso. Principalmente Savarez, ou D'Addario ou Augustine.

AH: Qual o tamanho e formato das suas unhas?

AP: Apropriado, segundo o que tiver que fazer.

AH: Que cuidados especiais você tem com elas?

AP: Comer e dormir bem. Mesmo. E polir com cuidado, para poder ter um contato útil e  bonito com as cordas.

AH: Há algum assunto que não abordamos que você gostaria de adicionar?

AP: Que eu amo o Brasil e a musica brasileira,  e que na minha próxima vida vou querer nascer no Brasil e navegar pelo Amazonas e pelo São Francisco, navegar toda a costa desde Belém ate o Rio Grande do Sul, vou fazer capoeira e, dançar muito samba até ficar sem sola nos sapatos, tocar choros todos os dias com amigos, aprender de cor O Sertão, cantar as canções de Pixinguinha, Chico, Vinicius, Adoniram, Noel Rosa, Jobim, Bonfá, Guinga, Zeca Pagodinho, Dorival, João Gilberto, Garoto, João Bosco, Elis,  Maria Rita,  e mais e mais...  Já comecei, todos os dias um pouco.

 

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